Quando criança, minha brincadeira favorita era esconde-esconde, mas eu também era doida por carimba e sete pecados. Enquanto morei no condomínio da Marcondes Pereira, andava de bike no pátio todo, e descia a rampa de patins. Me dava super bem com todas as crianças do prédio (exceto aquela vez em que dei um mega ataque de egoismo e berrei e chorei porque vi Tiago e Raissa brincando no meu quarto com todas as minhas coisas de Barbie espalhadas pelo chão enquanto eu assistia TV dodoi na sala, sendo que eu tinha deixado eles irem pro meu quarto brincar), e entre os jornaizinhos e os remédios que a gente inventava, também viviamos em guerra com o nosso vizinho. Tinha um pé de siriguela que dava pros dois lados, e era siriguela pra la e pra ca com todas as forças que crianças de 8 anos tem, em dias de batalha. Uma vez teve uma febre de catapora, mas eu não peguei. Outra vez, para rivalizar com o Clube dos Meninos, nós meninas criamos o Clube do Desenho. Eu mandava e desmandava e adorava isso, o Lucas me chamava de vaca louca (gente) e eu saia correndo atras dele com meu sapo de pelucia me sentindo a propria Mônica (eu achava o maximo).
A escola é um ambiente estranho, né? Por algum motivo, as coisas não se saiam tão bem por la. Entre ser a ultima a ser escolhida no futebol, ter vergonha das minhas notas (boas) e me sentir a menina mais feia da turma, não consegui guardar nenhuma amizade do Ensino Fundamental. As vezes eu acho que minha natureza introspectiva nasceu no ambiente escolar e so com muitos anos de reconstrução eu consegui me reestabelecer como aquela menina tagarela e ansiosa por gente dos primeiros anos, ou pelo menos um pouco.
Mas se meu trauma das noites em claro chorando porque não tinha amigos (aos 11 mudei para um prédio de idosos) foi rapidamente identificado, a minha aversão a esportes ficou. Os amigos, eu arranjaria, mas ficar encostada na parede até o arrastado final da escolha dos times e sentir aquele olhar de tô-pegando-você-porque-é-o-jeito do lider, isso eu não queria nunca mais. Basta de humilhação. No Ensino Médio, passei três anos arranjando atestado médico falso dizendo que eu não podia fazer exercicio fisico. A minha piada era que meu esporte era corrida... atras dos ônibus.
Quando eu me inscrevi para uma semana de esqui, eu estava mais curiosa pela aventura do que pensando na atividade fisica. Entre o nosso prô que colocava o oculos escuro por cima do gorrinho, nossos colegas tão iniciantes e exultantes quanto a gente (Mélanie, coitada, desceu rapido demais e se meteu dentro de uma faixa, bem cena de filme pra chorar de rir), as toneladas de protetor solar no rosto (e mesmo assim bronzeei) e as pistas verde, azul e vermelho (preto não que é muito dificil!), eu amei aquilo. O vento frio correndo pelas bochechas, a imensidão branca das montanhas que querem tocar o céu, a adrenalina de descer e descer e descer e descer e depois subir nas cadeirinhas olhando todo mundo formiguinha pra descer e descer e descer tudo de novo. Rafael me chamava de robôzinho, eu toda dura me concentrando muito mesmo pra que aquela ultima queda fosse realmente a ultima queda da semana.
O esqui entrou pra magra lista das atividades que eu gostava: patins, patinação no gelo, esqui. Uma lista tão chic que até parece uma espécie de autoboicote. Então eu pensei, pensei, e decidi que tinha que achar uma alternativa mais acessivel, em particular algo que eu pudesse praticar na minha terra natal. Ai eu pensei no surfe. Esquiando nas ondas.
A ideia era otima, adoro a vibe dos surfistas e a sensação de ter uma conexão com o mar, logo eu, Janaína Iemanjá, mas eu não sabia nadar. Animada com meu namorado que foi trabalhar numa usina nuclear e morou numa cidadezinha fim de mundo e uma das poucas coisas legais que tinha la era a piscina olimpica onde ele ia nadar todo dia, me inscrevi na natação.
Estou la firme e forte. Ainda não aprendi o crawl direito e borboleta nem vamos conversar. Alguma coisa me captou. A agua é morninha e às vezes na lua cheia, quando nado costas, nós duas (eu e a lua) ficamos brincando de quem pisca primeiro perde. Geralmente sou eu. A prô me ajuda a colocar a touca, porque senão eu ia acabar arrancando uma sobrancelha (ou duas!), e às vezes pega pesado comigo, mas ela quer me mostrar que meus limites sempre estão mais longe do que eu penso.
Estou amando não ser boa, e tentar, tentar, tentar, e ficar orgulhosa de ter melhorado um pouquinho. Mês passado, fizemos uma prova de resistência. A aula inteira nadando crawl, pra ver quantas voltas conseguiamos dar. Cheguei 10min atrasada e fiz 32 voltas. Meu coleguinha de 9 anos fez 78. Meu dentista tem 80 anos e também nada, começou a aprender mesmo quatro anos atras. Entre uma competição e outra, acabou ouro do Nordeste nos 100 e nos 400m. Categoria 80-84. Por enquanto estou na desvantagem, mas esperem so mais quatro anos...
segunda-feira, 15 de setembro de 2014
quarta-feira, 25 de junho de 2014
Piscar de olhos
Em algum momento da minha adolescência, eu era extremamente intrigada com o passar do tempo. Começava a subir a escada e de repente ja estava no meu andar. Um piscar de olhos e ja era fim do mês. Pesquisava teorias na internet e escolhi a que mais me agradou (a mais logica). Uma delas dizia que Deus estava apressando as coisas porque os tempos não estavam bons (tá, essa eu nem vi na internet, ouvi foi no salão mesmo).
Alguns momentos são curtos mas ficam gravados na memoria, seja por um motivo sério, seja pelo acaso. Logo antes de viajar pra França, uma veterana, que tinha acabado de chegar, me falou assim: "Vai passar num instante!" Nas vésperas da viagem, morrendo de ansiedade, eu não podia estar menos propicia a acreditar. Quando vi, estava de volta ao Brasil (mal deu tempo de escrever algo por aqui, tão rapido que foi!).
Esse semestre voou de jatinho. Meu ultimo drama não me sensibiliza ha meses, desde que decidi guarda-lo na gaveta. Hoje enfim paguei a multa por não ter votado nas ultimas eleições, porque não conseguia achar tempo livre desde... o ano passado. (Nem dinheiro! 6 reais não é mole não!) De um modo geral, saldo positivo: curti shows de bandas queridas, coisa que não ia ha anos, desenterrei leituras da estante, viajei e cuidei do meu bem-estar corporal. Talvez so tenha faltado um pouco mais de amizade. O problema é que morar minutos a pé de todos os seus amigos e dividir todo o seu mundinho (escola, refeições e tempo livre) com eles durante dois anos te faz criar um novo conceito de amizade que é impraticavel na sua vida normal. As vezes são semanas, meses! para conseguir marcar um encontro, ainda que essas mesmas amigas sempre consigam um tempo livre para ver o namorado semanalmente. Fica aquela solidão que te faz curtir mais você mesma.
terça-feira, 4 de março de 2014
"My mother is the longest love affair of my life"
Ja ha varios meses eu estou me preparando pra ter essa conversa com a minha mãe, que não sai. Não vai ser facil, e estou depositando tantas expectativas de que depois dela tudo estara lindamente resolvido que é capaz de so rolar uma grande decepção. (Ou de a conversa resultar em respostas nada consolantes...) E apesar dessa forte crença de que tudo se arranjara depois, não consigo dar o primeiro passo. Por que é um assunto delicado, porque é meu futuro, porque eu estou tão terrivelmente dividida, porque não se pode ter certezas certas na vida, porque... é dificil.
Enquanto isso, esse meu problema me causa maus humores, falta de vontade e sede de saudade... Como solução temporaria, fui quinta-feira dar aula de desenho numa creche.
É uma creche-orfanato, e as crianças são simplissimas e 100% carentes (de amor, antes de tudo). Ao final, uma aluna que eu pensava que nem tinha dado a minima pra aula chegou me abraçando e agradecendo. Se eles falavam o tempo todo que os gatos deles estavam feios e tortos, é porque so queriam carinho. Dei o meu maximo, escondendo no fundo do coração a minha culpa. Culpa pelos privilégios que eu tive durante toda a minha vida, e por estar onde estou porque nasci do utero da minha mãe e não do de outra mulher. Porque boa parte da minha personalidade e do que eu faço tem como base essa culpa. Da minha escolha profissional aos meus gastos mensais. Minha "falta" de ambição e minha pão-durice. Porque eu deveria me dar ao luxo de fazer tal coisa com tantos milhões vivendo abaixo da linha da pobreza? Eu não preciso disso. Afinal, nem é isso que realmente importa na vida. E o que é que realmente importa?
Ai entra o meu problema. Porque, nesse momento, o que realmente importa pra mim vai contra tudo o que eu sempre acreditei.
Eu preciso falar com a minha mãe pra ela me ajudar a conciliar esses dois eus.
Enquanto isso, esse meu problema me causa maus humores, falta de vontade e sede de saudade... Como solução temporaria, fui quinta-feira dar aula de desenho numa creche.
É uma creche-orfanato, e as crianças são simplissimas e 100% carentes (de amor, antes de tudo). Ao final, uma aluna que eu pensava que nem tinha dado a minima pra aula chegou me abraçando e agradecendo. Se eles falavam o tempo todo que os gatos deles estavam feios e tortos, é porque so queriam carinho. Dei o meu maximo, escondendo no fundo do coração a minha culpa. Culpa pelos privilégios que eu tive durante toda a minha vida, e por estar onde estou porque nasci do utero da minha mãe e não do de outra mulher. Porque boa parte da minha personalidade e do que eu faço tem como base essa culpa. Da minha escolha profissional aos meus gastos mensais. Minha "falta" de ambição e minha pão-durice. Porque eu deveria me dar ao luxo de fazer tal coisa com tantos milhões vivendo abaixo da linha da pobreza? Eu não preciso disso. Afinal, nem é isso que realmente importa na vida. E o que é que realmente importa?
Ai entra o meu problema. Porque, nesse momento, o que realmente importa pra mim vai contra tudo o que eu sempre acreditei.
Eu preciso falar com a minha mãe pra ela me ajudar a conciliar esses dois eus.
Assinar:
Postagens (Atom)



