Quando eu ainda tinha aula de inglês (puxa, puxa, estou de férias, estou de férias!) e ainda me preocupava com horário, ou seja, me incomodava de chegar mais cedo na parada de ônibus para pegar linha decente, acontecia de eu ver muitos, muitos aviões.
Numa ida de manhã, eu via três. Na ida pra faculdade à tarde, mais dois, mais três. Houve dia em que cheguei a contar assim nove, e mais um helicóptero!
Mas toda essa obsessão é por causa de uma história que eu li, que um passarinho assobiou no meu ouvido, de que se você ver dez aviões num único dia, você tem direito a um desejo. Um único e belo desejo, que acontece – é claro.
Acontece que eu sou toda doida por tudo que tem a ver com desejos. Dente-de-leão? Sempre soprei e fiz pedido. Velinhas de aniversário, sussuros antes de dormir, poço de desejos, adoro tudo isso. Fiquei sabendo dos aviões e me pus a contar. Nunca consegui, nunca tive meu desejo.
Contei a amigo da faculdade, ele soltou:
– Eu vejo muitos aviões todos os dias. Eu moro na Aerolândia.
E também tem toda a história de ver hora repetida, números iguais, 12:12, 04:04? Que significa que tem alguém pensando em você. Alguém apaixonado por você. (Parte claramente modificada para se encaixar nos meus interesses.)
Pronto, outra coisa que me viciou. E viciou num vício totalmente indiferente e casual, já que a hora não vale se for intencional, se ficar esperando, etc, tem que olhar pro relógio e PUF. Na faculdade eu via várias e várias vezes numa tarde, numa semana, e galera toda crente de que eu trapaceava (não!). Não trapaceava, descobri trama, e nem sei mais se quero ver essa hora especial, hm. A não ser que seja alma gêmea do ônibus, que conversou comigo sobre Edgar Allan Poe e foi total besta com suas histórias de como o conto tinha toda uma explicação profunda e filosófica sobre vida e morte que ele infelizmente não se lembrava mas certamente existia! Hoje até o vi de relance, mas neca de conversa.