domingo, 17 de abril de 2011

Celina

Eu tenho uma tia muito querida que é casada com um tio muito querido mas que nunca usou véu e grinalda porque o primeiro casamento desse meu tio foi um dos dois únicos casamentos em que eu estive. O outro foi de uma amiga minha, o que foi uma experiência louca e linda. Cheio de champagne, fotos, músicas clássicas e presentes - o meu foi uma sopeira particularmente amor em que você coloca velas para manter a refeição quente.
Essa minha tia não é velha, nem de idade nem de espírito. No entanto, ela ainda pegou a época das cartas. A época das correntes de endereço. Você inseria seu endereço por último numa lista de 10 e pegava o número 1 para você. Como obrigação, o prazer da troca de cartas. O endereço que ela pegou foi de uma menina chamada Celina que tinha 12 anos na época, assim como minha tia, e morava em Portugal. Elas trocaram cartas incessantemente durante anos. Eu sempre soube dessa história, desde que minha tia e sua filhinha entraram na minha vida, mas os detalhes só vieram aos meus ouvidos numa carona de quase uma hora de duração do alojamento da Ufal até o Centro de Convenções de Alagoas, para a abertura do meu encontro. (Eu estava acompanhada de uns meninos do PET, e simplesmente adorei dividir essa bela intimidade familiar com eles.) As meninas dividiram suas adolescências, suas faculdades, os primeiros empregos e amores. Os anos foram passando, elas começaram a usar as facilidades da internet, email, Skype, webcam, e mantiveram a amizade mais forte que um halterofilista sem nunca terem se abraçado. Minha tia nunca viajou a Portugal, nem Celina veio ao Brasil, e desde sempre tem esse oceano separando as duas.
No ano de 2006 eu fiz 15 anos, e pedi uma viagem a mamãe. Enquanto curtíamos ares internacionais, recebemos um email-notícia dos mais empolgantes: minha priminha, filha de minha tia, tinha nascido. Minha tia deu a ela o nome de Celina.
Celina é um amor de menina hiperativa, está aprendendo a ler e adora brincar com os animaizinhos que mamãe coleciona pela casa. Na nossa geladeira, temos um desenho que ela mesma fez, que na verdade é um arte meio pós-moderna, porque tem um lápis colado à pintura. Uma obra para olhos treinados.
Eu gosto de desenhar, e vivo por aí atrás de outras pessoas que também gostem e um pouco de ânimo para desenhar um pouquinho mais. Ano passado, lendo um blog de uma ilustradora brasileira, vi sobre sua mais recente publicação: um livro infantil chamado Celina, repleto de aquarelas.
O nome dela nem é comum, e mesmo assim tem um livro que se chama Celina, e é infantil, e as ilustrações são de uma ilustradora que faz aquarelas lindas. Quão encantador não é para um criança encontrar um personagem com quem se identificar integralmente, porque as duas meninas têm o mesmo nome? Só de assistir desenho animado as crianças já gritam: eu sou ela! Sou eu! Eu vou ser ela! Eu mesma nunca gostei da ausência de personagens de pele morena, ficava realmente complicado se identificar com alguém.
Faltei me corroer de ansiedade pelo lançamento que não saía nunca, não deu pra comprar no Natal, nem no ano novo e chegou abril, com os seis anos da nossa sobrinhainha favorita. Ontem, num dia em que eu surpreendentemente consegui fazer mais coisas no que tinha incluído na lista:

1) dei aula no cursinho da faculdade com minha bff mais recentemente adquirida depois de anos de ausência de novas amizades femininas, e fomos docemente chamadas de Dupla Dinamite,
2) almocei baião-de-dois com carne de sol,
3) fui numa loja de festas comprar apetrechos para o meu aniversário (que, depois de breves períodos de exaltação e nervosismo, já estou muito crente de que será um grande fiasco),
4) fui numa papelaria comprar mais apetrechos para o meu aniversário, e encontrei lindas canetas de riscar vidro, que eu evidentemente comprei,
5) fui numa livraria, onde eu não encontrei o livro Celina e
6) fui em outra livraria, onde encontrei o livro Celina!!!!

Então, pela primeira vez desde que eu tinha ficado sabendo da existência do livro, eu fiquei sabendo da história do livro. E eu cheguei à conclusão de que de forma alguma eu poderia dar aquele livro para a minha priminha linda, bela e ingênua de cinco, hoje seis, anos.
Pela sinopse, eu nunca imaginaria, mas o livro tratava de... de... de... leucemia. Celina, meiga Celina, tinha câncer. O livro não é ruim. Trata o assunto com carinho e sensibilidade, mas que sementinha ia brotar na cabeça da minha priminha? Alô, não. Compramos uma versão moderna de Rapunzel e um livro bonito da Cosac Naify, que outra tia minha daria de presente.

5 comentários:

Irena disse...

Acho muito legal quem mantém amizade a distância desse jeito.
Isso me faz pensar que hoje só mantenho o meu blog por causa das pessoas legais que conheci através dele. Tem dias que fico assim, sem uma vontade de continuar escrevendo, mas aí penso: putz, como vou manter contato com a Jana e os outros amigos de internet?
Por isso fico muito triste quando você não atualiza por aqui :( (o que felizmente não tem acontecido esses últimos meses!).
Mas mudando de assunto... Acho que sua prima não ia gostar mesmo de ganhar um livro sobre leucêmia, muito triste! Essa capa meiguinha engana mesmo a gente. Mas vocês podiam comprar e guardar o livro, aí davam pra ela quando ela estivesse maiorzinha e compresse melhor o assunto, sei lá. Porque eu ia gostar muito de ter um livro com meu nome!


P.S.: sério que você me achou adulta? Acho que nunca ninguém me disse isso antes!
E, ah, deixe de besteira de se achar criança e desinteressante! Tenho certeza que seu vídeo vai ser amor sem fim.

Jana Mith disse...

Que bonitinha a história da sua tia! e concordo com a irena qt a ter um livro com seu nome você pode guardar e dar pra ela depois :). O livro era realmente infantil? Ainda bem que tu olhou porque com seis anos a pessoa nem tem noção do que se trata. Hahaha e espero que seu aniversário seja legal :D. bjos

Luisa Pinheiro disse...

Oh meu deus! Foi o que eu pensei quando li qual era a história do livro "Celina" (que, por sinal, é um nome muito muito bonito!). Concordo com a Irena, deviam comprar pra sua priminha e dar de presente quando ela estiver maior. Eu pelo menos ia gostar de saber que alguém sempre quis me dar tal livro e não me deu em determinada época da vida pra não me machucar!

Essa história da amizade longa também é uma fofura, hein. Gosto de pensar que hoje em dia mantemos nossas amizades pelo blog mesmo e quem sabe um dia a gente faça uma grande troca e daremos nomes umas das outras pra nossas filhas! ahhahaa

Grava teu vídeo logo, quero nem saber! Eu gravei aquele meu aproveitando que meu housemate tinha me deixado só em casa por alguns minutos, porque, né, eles nem sabem que tenho blog e iam me achar ainda mais lok lok lok falando sobre meus livros pra minha câmera! Juro que um dia penso num vídeo comigo falando pra postar no blog e vc me ver hihihi ;)

p.s.: Mamãe, padrasto e filhos do padrasto estão nesse momento no carro a caminho de Fortaleza! Então se você ver uma loira de olhos verdes ligeiramente parecida comigo pode abraçar que é minha mãe! hihihiih

Deborah disse...

é, meio tenso dar um livro sobre morte pra criança de seis anos. talvez depois, quando ela tiver, sei lá, uns 10.

eu tive alguns amigos de carta na escola, mas não mantive contato com nenhum deles. sinto falta, às vezes. bem legal quem consegue fazer isso :)

Gabriela Couth disse...

Achei muito linda a história da sua tia, dessa amizade tão linda que o nome da filha dela é o mesmo. A minha melhor amiga de todos os tempos morou pouquissimo tempo aqui em Fortaleza, ela está sempre se mudando e passamos meses sem se apertar, mas também é uma amizade dessas tão fortes quanto halterofilistas :)

E deixa a histórinha da Celina para quando a Celina já for grande.. Com certeza ela vai gostar mais dos outros livros :D

Beeeijo, Jana!

AAhh!
Quando você fizer o meme, eu quero ser indicada sim, huaheiua. Não vou ficar sem postar.. :)))))

Beijo!
Bom aniversário!