sábado, 14 de maio de 2011

Paternidade silenciosa

Algo que, a cada ano que passa, me impressiona mais e mais e mais é como eu consegui escolher a faculdade certa pra mim. São tantos argumentos contra a minha escolha que eu não consigo nem crer que eu esteja vivendo essa realidade.
Quando eu era criança, eu queria ser caixa de supermercado. Ou escritora de livros. Ou taxista. Durante muitos anos, eu me decidi por jornalismo. Hoje eu estou estudando pra virar engenheira. Não tem ninguém na minha turma com quem eu divida o meu gosto musical, ou com quem eu converse sobre quadrinhos, e no entanto no Ensino Médio todas as minhas amizades verdadeiras foram aquelas com quem eu compartilhava o mp3 na hora do recreio. Eu nunca morei com o meu pai, ou com qualquer animal do sexo masculino (todos os meus bichinhos, eliminando um único jabuti, todas fêmeas), e fiz vestibular para um curso com menos de 10% de meninas. Eu nem gostava de física elétrica!
O que eu gosto de pensar é que eu fui muito extremamente maluca saindo da minha zona de conforto conscientemente justamente para... sair da zona de conforto. Simples.
Com meu pai não consigo deixar nada muito simples. A cada sessão de terapia paterna sinto apenas que todo o esforço em criar amor só trouxe desgaste e nenhuma gota de felicidade. Já vão anos desde o início da reconstrução da relação. E necas. Depois de tanto tempo me achando tão cheia de problemas de relacionamento, parece que eu enfim consigo gostar das pessoas pelo que elas são (e não pelo que elas gostam), mas nem isso é suficiente, nããão. Eu tenho que aprender a amar o meu pai. De graça. Tirar o amor do bolso. Como criar um amor por uma figura que não existe realmente para você? Por uma figura que você sequer consegue fazer existir? Eu não consigo amar meu pai porque eu não entendo direito o que um pai faz. Na minha cabeça, os pais são secundários, apêndices da mãe. Por que minha vida toda, esse meu pai foi menos do que um sombra. O que um pai faz? Ano passado, no dia das mães, pedi que mami me contasse a minha história de antes de eu nascer. Eu nunca tinha perguntado nada. Mamãe contou. É curioso como alguns acontecimentos da sua vida podem te completar tanto e trazer tanta serenidade e solidão, simultaneamente. Quando baixou toda a história na minha cabeça, me senti... tantas coisas. Tantas coisas que eu não disse pra ninguém e não tenho intenção de dizer em nenhum futuro próximo, porque são tão íntimas. Basicamente, fico me sentindo só, e me sentindo eu.
Estava cobrindo a segunda página do quadrinho quando mamãe chegou em casa. Comentou da minha mecha retocada com papel crepom e pegou a folha A4 pra ler. Eu disse que ela não podia ler, porque, apesar de nossa relação ser ótima, não tem muito diálogo de intimidades. Ela ficou manhosa e leu mesmo sem eu ter deixado, mesmo estando ao meu lado. Ela achou super engraçado. Eu disse "Mãe, é uma história triste e não era pra tu estar rindo." "É que eu não consigo acreditar que uma criança que é a Celina tenha tido a engenhosidade de chamar teu pai de babau!!!" E eu fiquei sem entender o que há de tão difícil em associar as duas figuras, porque para mim é praticamente uma metonímia.

6 comentários:

Luisa Pinheiro disse...

Sim, nós duas muito lindas rendendo dois posts numa mesma noite! E trocando comentários ainda, hehe.

Adorei esse post... porque eu me identifico muito com sua relação com teu pai. Também sempre enxerguei papai como um apêndice, uma memória muito dolorosa da minha infância foi numa época que ele sumiu, perguntava dele pra minha irmã, ela também não sabia... Já faz mais de cinco anos que ele tem tentado ficar perto da gente, ele veio me visitar aqui em Floripa no último feriado e tivemos uma briga feia. Ao menos tempo que aproveitamos pra falar um ao outro o que tava entalado, foi uma briga de verdade. Briga daquelas que só acontecem quando existe alguma relação de afeto sincero. No fim, acabou nos unindo.

E adorei a Celina pelos seus quadrinhos! Já tinha gostado desde aquele post sobre o livro infantil, mas agora pude ver que ela é um amorzinho!

Boa noite, Jana ;))
beijo

Larissa L. disse...

Olha, Jana, eu não cresci longe do meu pai, mas por várias das coisas que ele fez, foi como se tivesse.
Já tive milhares de brigas e quis fugir de casa tantas vezes, mas por questões de saúde ele melhorou, também no comportamento.
E eu ter ido morar fora ajudou também à minha família ficar mais unida, incrível né?! Rs, de qualquer forma, acho que eu não seria quem sou agora, se essas coisas não tivessem acontecido...
É claro que é muito chato pensar em todos os momentos infantis que eu perdi e em como é chato agora ele achar que eu ainda sou criança, mas estamos bem!
Algumas coisas até melhoram com o tempo!

Um beijo grande!

deborah disse...

oi jana :) obrigada pelo comentário, talvez eu faça um post processo criativo, sim. seria legal.

bem, sobre pais. eu gosto muito do meu e tal, mas tenho uma prima que é filha de mãe solteira e só conheceu o pai dela aos 8 anos e, do mesmo jeito que você, não consegue amá-lo. então vou dizer pra você a mesma coisa que disse pra ela: você não é obrigada a amar ninguém só porque ela é da sua família. acho que a gente tem todo o direito de escolher quem amar. mesmo que ele realmente tivesse te criado e fosse chato, você não teria que amar. a gente não dá amor do nada, o outro precisa merecê-lo.

Irena disse...

Jana, eu achei o seu quadrinho muito triste (mas lindo).
E nem sei porque achei triste, já que não sei o que você tá sentindo ou como se sente em relação a isso. A minha família é bem normal, meus pais são casados e nunca vi briga feia entre eles (apesar de eles também não serem muito fãs de demonstração de afeto, mas, sei lá, eu também não sou). Acho que a sua realidade é completamente diferente da minha.
Mas existem coisas boas. Você não consegue amar seu pai, mas tem uma relação ótima com sua mãe (uma coisa que eu não tenho, por isso que me irrito com esses seriados tipo "Gilmore Girls" que mãe e filha são super amiguinhas e eu simplesmente NÃO COMPREENDO ESSA RELAÇÃO, mas isso é outra história). Pra mim pais são só pais, não fico pensando muito se eu os amo ou não.
Mas uma coisa a gente tem em comum: também aprendi muita coisa sobre amar alguém durante a faculdade. Eu nem me apaixonei ne nada, mas acho que de uns tempos pra cá eu também percebi que dá pra gostar das pessoas exatamente pelo que ela são e que isso que é amor.
Acho que um dia tu vais conseguir conversar com teu pai abertamente, e entender porque ele fez todas as coisas que fez, porque ele foi meio ausente na tua infância, e essas coisas. E acho que quando tu entenderes, talvez tu consigas amá-lo.


P.S.: sou fã da Celina! Diz isso pra ela, HAHAHA! Se algum dia ela quiser que eu faça um desenho pra ela ia ficar muito feliz.

Aíla disse...

Oi, Jana. Faz tempo que tenho lido sem comentar, mas me identifiquei super com esse post (me surpreendi com o monte de gnt q tb). No meu caso o problema é com a minha mãe (e pras pessoas, se você n se dá bem com sua mãe, é um monstro, n importa oq tenha acontecido). Meu pai é o que sua mãe é pra vc, imagino. minha mãe é o apêndice. um apêndice q, depois de tempos, resolveu querer deixar de ser na marra. mas, enfim, n vou ficar tagarelando aqui sobre isso.
Só queria dizer que me identifiquei tanto quando c falou de solidão, sabe. Esses últimos dias tô bem assim. Foi como se eu sempre soubesse dessa minha solidão, mas só agora tenho me deixado sentir, séi lá. E, é isso. Parei de mimimi haha :)
O blog continua ótimo, Jana. E adorei o post sobre sua festa!
Beijos

Anna disse...

Jana, gostei muito do post, da tua sinceridade e do modo como expôs sua situação. Não sei bem o que poderia te dizer, porque eu não sei como é isso que você está vive. Apesar de ter pais separados, sempre tive uma relação muito boa com o meu pai, e acho que a separação até ajudou nisso, porque uniu bastante nós três. Acho que justamente a distância nos fez próximos, acho que se eu e meu pai morássemos juntos nossa relação seria um caos, porque somos absurdamente parecidos e um apartamento é pequeno demais para dois control freaks cheios de manias e enjoamentos como nós dois. Tanto que, se passamos mais de um fim de semana juntos, terminamos chateados um com o outro, eu brava porque ele fica me mandando, ele irritado porque eu não tenho mais 5 anos e não faço as coisas do jeito que ele acha que eu deveria.
É bizarro como a dupla pai e mãe exerce uma influência tão poderosa nas nossas emoções, relações, e maneira como vemos o mundo... Se descobrir é importante e provoca mudanças, e essas coisas são nossas mesmo, porque a repercusão altíssima que elas causam, acontece só mesmo no nosso interior. Engraçado que direto eu tenho umas epifanias do tipo sacar umas coisas que aconteceram quando eu era muito muito muito pequena e que influenciam atitudes que tenho hoje. Isso é meu, assim como os sentimentos sobre a história de você, sua mãe, e seu pai são coisas tuas. Você não é obrigada a amar ninguém, porque laço de sangue não é sinônimo de amor. Você tem uma mãe que eu não conheço, mas que eu enxergo como alguém super bacana, gatas fofas e amigos de verdade (lembrei de Alta Fidelidade, quando o Rob começa a perceber que a essência das pessoas são mais importantes que seus gostos musicais, uma prima gracinha, esse pessoal que merece todo o amor do mundo. =)